Texto 009 – Excertos do livro “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett”     

Excertos do livro “Cartas dos Mahatmas para A. P. Sinnett”

Vol. I. e II.
Editora Teosófica – Brasília
1ª ed., 2001

As cartas foram escritas para A.P. Sinnett entre os anos de 1880 a 1885, principalmente pelo Mahatma Koot Hoomi.

VOLUME I

Quanto à natureza humana em geral, ela é igual agora a como era há um milhão de anos atrás: preconceito baseado no egoísmo; uma resistência generalizada a renunciar à ordem estabelecida das coisas em função de novos modos de vida e de pensamento – e o estudo oculto requer tudo isso e muito mais -; orgulho e uma teimosa resistência à Verdade, quando ela abala as suas noções prévias das coisas – tais são as características da sua época (…).
(Carta no 1 – escrita por K.H.)

§

Aquele que quiser erguer alto a bandeira do misticismo e proclamar que o seu reino está próximo tem que dar o exemplo aos outros. Ele deve ser o primeiro a mudar os seus próprios modos de vida; e, com relação ao fato de que o estudo dos mistérios ocultos é o degrau mais alto da escada do Conhecimento, tem que proclamar isso em voz alta, apesar da ciência exata e da oposição da sociedade. O Reino do Céu é obtido pela força, dizem os místicos cristãos. É somente com uma arma na mão e disposto a vencer ou morrer que o místico moderno pode ter a expectativa de alcançar seu objetivo.

O principal objetivo da Sociedade Teosófica (ST) não é tanto satisfazer aspirações individuais, e sim servir aos nossos semelhantes; e o valor real da palavra “egoístas”, que pode soar mal aos seus ouvidos, tem para nós um significado peculiar que pode não existir para você; portanto, em primeiro lugar, você não deve entender a palavra de outra forma a não ser no sentido acima. Talvez compreenda melhor o nosso significado ao saber que, do nosso ponto de vista, as mais elevadas aspirações pelo bem-estar da humanidade ficam manchadas pelo egoísmo se na mente do filantropo ainda houver uma sombra de desejo de autobenefício ou uma tendência para fazer injustiça, mesmo quando ele é inconsciente disso.
(Carta no 2 – escrita por K.H.)

§



(…) Sei que seus motivos são sinceros e verdadeiros, e que uma mudança real, na direção correta, ocorreu em você, embora ela pareça imperceptível até a você mesmo. E os Chefes sabem disso também. Mas, dizem eles, os motivos são vaporosos, tão tênues como a umidade atmosférica; e assim como esta última tem energia dinâmica utilizável pelo homem só quando está concentrada e aplicada na forma de vapor ou força hidráulica, assim também o valor prático das boas intenções é melhor visto quando elas tomam a forma de ações… “Nós esperaremos para ver”, dizem eles.
(Carta no 13 – escrita por K.H.)

§



(…) não esqueça as palavras que já lhe escrevi sobre aqueles que se dedicam às Ciências Ocultas; que aquele que o faz “deve alcançar a meta ou perecer. Uma vez começado o Caminho para o grande Conhecimento, duvidar é correr o risco de perder a razão; parar é cair; retroceder é cair para trás, de cabeça para baixo, num abismo.” Nada tema – se você é sincero, e o é – agora. Você tem a mesma segurança em relação ao futuro?

(…) Isso se aplica igualmente ao caso de lorde Crowford e Balcares, um excelente cavalheiro – aprisionado pelo mundo. Ele tem uma natureza sincera e nobre, embora possa ser um pouco reprimido. Ele pergunta que esperança pode ter. Eu digo: toda esperança, pois ele tem dentro de si algo que só uns poucos possuem: uma fonte inesgotável de fluido magnético que, se ele tivesse o tempo necessário, poderia manifestar torrencialmente e não necessitaria outro mestre a não ser a si próprio. Os próprios poderes dele fariam o trabalho, e a sua grande experiência seria um guia seguro. Mas ele teria que se preservar de toda influência estranha, especialmente daquelas que são antagônicas ao nobre estudo do HOMEM como um Brahmam integral, o microcosmo livre e inteiramente independente, tanto do auxílio como do controle dos agentes invisíveis que a “nova dispensação” (expressão bombástica!) chama de “Espíritos”.
(Carta no 15 – escrita por K.H.)

§



Aqueles que realmente desejam aprender devem abandonar tudo e vir até nós, em vez de pedir ou esperar que nós avancemos até eles. Mas como isso pode ser feito em seu mundo e sua atmosfera?
(Carta no 20 – escrita por K.H.)

§



Nós, asiáticos semi-selvagens, julgamos um homem pelas suas intenções e as suas são todas sinceras e boas. Mas você tem que lembrar que está numa escola muito dura, e tratando agora com um mundo inteiramente diferente do seu. Especialmente, você tem que ter em mente que a mais leve causaproduzida, mesmo inconscientemente e com qualquer intenção, não pode ser desfeita, nem é possível interceptar o progresso de seus efeitos – nem com a força combinada de milhões de deuses, demônios e homens.
(Carta no 21 – escrita por K.H.)

§



Nós, moradores das choupanas indo-tibetanas, nunca entramos em conflito (isto é em resposta a alguns pensamentos expressados em relação ao assunto). Deixamos os conflitos e mesmo as discussões para aqueles que, incapazes de avaliar uma situação num relance, são por isso forçados, antes de chegar a uma decisão final em relação a qualquer coisa, a analisar e avaliar um a um e várias vezes cada detalhe. Sempre que nós – pelo menos aqueles entre nós que são dikshita (Iniciados) – parecemos, portanto, a um europeu, não “inteiramente seguros em relação aos nossos fatos”, isso pode freqüentemente ser devido à seguinte peculiaridade: aquilo que a maioria das pessoas considera como um “fato” não nos parece mais do que um simples RESULTADO, uma visão do passado que não merece a nossa atenção, atraída geralmente por fatos primários. A vida, estimados Sahibs, mesmo quando prolongada indefinidamente, é demasiado curta para que sobrecarreguemos nossos cérebros com pequenos detalhes – meras sombras. Ao observar o desenvolvimento de uma tempestade, nós fixamos nosso olhar na causa que a produz e abandonamos as nuvens ao capricho do vento que lhes dá forma. Tendo sempre meios à mão para trazer à nossa consciência quando realmente necessário os detalhes menores, nós nos ocupamos apenas dos fatos principais. Por isso, dificilmente poderíamos estar absolutamente equivocados – como somos com freqüência acusados por vocês -, pois as nossas conclusões jamais são baseadas em dados secundários, mas na situação como um todo.

Por outro lado, os homens comuns – mesmo os mais intelectuais – ao darem toda sua atenção ao significado das aparências e da forma externa, incapazes como são de penetrar a priori até o cerne das coisas, tendem a avaliar erradamente toda a situação, sendo condenados a só descobrir o seu engano quando já é tarde demais.

(…) De fato, não há em nenhum lugar da natureza física um abismo entre montanhas tão desesperadamente intransponível e cheio de dificuldades para o viajante como esse abismo espiritual que os mantém afastados de mim. [Palavras de K.H. citadas por Morya.].

(…); e aquele que quer saber como beneficiar a humanidade e acredita que é capaz de identificar o caráter das outras pessoas tem que começar, antes de tudo, a aprender a conhecer a si mesmo, a perceber o verdadeiro valor de seu próprio caráter.

Vocês dois têm a estranha impressão de que nós podemos nos importar e mesmo nos importamos com alguma coisa que se diga ou pense de nós. Tirem este erro das suas mentes e lembrem que a primeira exigência, mesmo para um simples faquir, é que ele deve ter treinado a si mesmo até saber permanecer indiferente tanto à dor moral como ao sofrimento físico. Nada pode causar, em NÓS, dor ou prazer pessoal.
(Carta no 29 – escrita por Morya)

§



Você deve pôr de lado completamente o elemento pessoal se quiser progredir no estudo oculto e – por um certo tempo – mesmo em relação a Ele (isto é, em relação ao Mahatma K.H.). Compreenda, meu amigo, que os afetos pessoais têm pouca ou nenhuma influência sobre qualquer adepto verdadeiro no cumprimento de seu dever. À medida que ele se eleva em direção ao perfeito adeptado, as fantasias e antipatias do seu eu anterior são enfraquecidas: ele acolhe toda a humanidade em seu coração e a considera em conjunto.

A tarefa é difícil e K.H., em homenagem aos velhos tempos, quando gostava de recitar poesia, pede-me que encerre a carta com o seguinte, para você:

“O caminho serpenteia montanha acima o tempo todo?”
“Sim, até o final.”
“E o trajeto de cada dia toma o dia todo?”
“Da manhã à noite, meu amigo”.

Do poema Up-Hill (Montanha Acima), de Christina Rossetti (1830-1894).

O conhecimento, para a mente, como o alimento para o corpo, destina-se a nutrir e ajudar o crescimento, mas necessita ser bem digerido, e quanto mais completa e lentamente for encaminhado o processo, melhor será para o corpo e a mente.
(Carta no 42 – escrita por Morya)

§



Ela (H.P.B.) não pode responder do modo como ele ou você poderiam fazer, e o resultado seria que as sugestões mais valiosas deixariam de alcançar as mentes daqueles que buscam a verdade, pois uma pérola solitária logo desaparece em meio a um monte de falsos diamantes quando não há um joalheiro que chame a atenção sobre o seu valor. (…)

É isso, amigo. O caminho através da vida terrena conduz a muitos conflitos e testes, mas aquele que nada faz para vencê-los não pode esperar nenhum triunfo. Assim, pois, que a perspectiva de uma introdução mais completa em nossos mistérios, sob circunstâncias mais favoráveis, cuja materialização dependeinteiramente de você mesmo, lhe dê paciência para esperar, perseverança para continuar o esforço, e plena preparação para receber a abençoada realização de todos os seus desejos. E para isso tem de se acordar que, quando K.H. lhe disser, “Suba até aqui”, você tem que estar pronto.
(Carta no 43 – escrita por Morya)

§



Mas o que é o “eu”? Só um hóspede passageiro, cujas preocupações são todas como uma miragem no grande deserto…

M. expressou-se bem e com toda verdade quando disse que um amor por toda a humanidade é a crescente inspiração dele, e que se qualquer pessoa deseja atrair sua atenção, deverá vencer a tendência dispersiva com uma força mais vigorosa do que ela.
(Carta no 47 – escrita por K.H.)

§



Não se deixe levar por preocupações sobre que males poderiam ocorrer se as coisas não avançassem como a sua sabedoria mundana recomenda; não duvide, porque esta aparência de dúvida desanima e dificulta o progresso. Ter uma alegre confiança e esperança é completamente diferente de entregar-se ao otimismo cego e insensato; o homem sábio nunca combate o infortúnio adiantadamente.

Deixe que a evolução siga o seu curso natural para que não a desviemos, produzindo monstros, enquanto pensamos que a estamos guiando.
(Carta no 48 – escrita por Morya)

§



Lembre-se: uma expectativa demasiado ansiosa não só produz tédio, mas também é perigosa. Cada batida mais cálida e rápida do coração desperdiça muita vida. Aquele que busca SABER não deve ser indulgente com as paixões e afetos, porque eles “desgastam o corpo terrestre com o seu próprio poder secreto, e aquele que deseja alcançar o seu propósito – deve ser frio“. Não deve nem mesmo desejar demasiado intensamente ou demasiado apaixonadamente o objetivo que aspira alcançar; do contrário, o próprio desejo impedirá a possibilidade da sua realização, e na melhor das hipóteses – o retardará e o pressionará para trás.
(Carta no 49 – escrita por K.H.)

§



A única coisa que você pode fazer é preparar o intelecto; o impulso para a “cultura da alma” deve ser dado pelo indivíduo. Três vezes felizes são aqueles que rompem o círculo vicioso da influência moderna e surgem acima das névoas!
(Carta no 54 – escrita por K.H.)

§



Devo também acrescentar aqui que, qualquer coisa parecida a um estado mental oscilante em relação à realidade da Ciência Oculta e à eficácia do processo indicado provavelmente impedirá a produção do resultado desejado.
(Carta no 58 – escrita por T. Subba Row)

§



Meu caro amigo: eu o aconselho enfaticamente a não empreender agora uma tarefa que está além das suas forças e dos seus meios, pois uma vez tendo assumido o compromisso, se você quebrasse a sua promessa, isso o afastaria por anos, se não para sempre, de qualquer progresso a mais. (…) Como você poderia, em sua situação, assumir tal trabalho? Com o Ocultismo não é possível brincar. Ele exige tudoou nada.
(Carta no 59 – escrita por K.H.)

§



Depende de você, portanto, imortalizar o seu nome de modo a forçar as futuras raças mais elevadas, a dividir a nossa era e chamar a subdivisão de “período Pleisto-Sinnético” [trocadilho com o nome de Sinnett em relação ao termo pleistocênico, que significa o período geológico recente, ou pleistoceno, em que havia a ocorrência periódica de eras glaciais], mas isso jamais poderá ocorrer enquanto você trabalhar mantendo a impressão de que “os propósitos que temos em vista podem ser alcançados com uma temperança e uma disciplina razoáveis“. A Ciência Oculta é uma amante ciumenta e não permite uma sombra de auto-indulgência; e ela é algo “fatal” não só para a vida comum de uma pessoa casada mas também para o consumo de carne e vinho.
(Carta no 62 – escrita por K.H.)

§



Há homens que buscam conhecimento até sentirem um cansaço mortal, mas mesmo estes não sentem muita impaciência por ajudar o seu próximo com o que sabem; disso surge uma frieza, uma mútua indiferença que torna aquele que sabe incoerente consigo mesmo e desarmonioso com o que o rodeia. Visto do nosso ponto de vista, o mal é muito maior no lado espiritual que no lado material do homem.

Mas para a obtenção do objetivo a que você se propõe, isto é, para uma compreensão mais clara das teorias extremamente abstrusas e inicialmente incompreensíveis da nossa doutrina oculta, nunca deixe que a serenidade de sua mente seja perturbada durante suas horas de trabalho literário, nem antes de começar a trabalhar. É sobre a serena e plácida superfície da mente imperturbada que as visões captadas do mundo invisível encontram uma representação no mundo visível. De outro modo você buscaria em vão aquelas visões, aqueles raios de luz súbita que já ajudaram a resolver tantos problemas menores, e que são os únicos que podem colocar a verdade diante dos olhos da alma. É com zeloso cuidado que temos de proteger nosso plano mental de todas as influências adversas que surgem diariamente em nossa passagem pela vida terrestre.
(Carta no 65 – escrita por K.H.)

§



O potencial para o mal é tão grande no homem quanto – lamentavelmente até maior que – o potencial para o bem.
(Carta no 70C – escrita por K.H.)

§



Este outro nome é PROVAÇÃO; algo pelo qual todo chela que não quer permanecer simplesmente ornamental tem nolens volens [“Querendo ou não”, em latim] que passar durante um período mais ou menos prolongado.

(…) Um chela em provação tem permissão para pensar e fazer o que quiser. Ele é advertido e informado previamente: “Você será tentado e enganado pelas aparências; dois caminhos se abrirão diante de você, os dois levando à meta que você está tentando alcançar; um, fácil, e este o levará mais rapidamente ao cumprimento das ordens que você pode receber; o outro, mais árduo, mais longo; um caminho cheio de pedras e espinhos que o fará pisar em falso mais de uma vez; e no final do qual você pode, talvez, chegar a um fracasso, depois de tudo, e ser incapaz de executar as ordens dadas para um pequeno trabalho particular – mas, enquanto este caminho fará com que as dificuldades enfrentadas por você devido a ele sejam todas contabilizadas a seu favor a longo prazo, o outro, o caminho fácil, só pode oferecer a você uma gratificação momentânea, uma realização fácil da tarefa”. O chela tem toda liberdade, e freqüentemente muitas razões, do ponto de vista das aparências, para suspeitar que seu Guru é um “impostor”, uma palavra elegante. Mais que isso: quanto maior e mais sincera sua indignação – seja ela expressada com palavras ou esteja fervendo em seu coração – tanto mais adequado ele é, e mais qualificado para tornar-se um adepto. Ele é livre para usar, e não terá que responder pelo fato de empregar até mesmo as palavras e expressões mais abusivas em relação às ações e ordens do seu guru, uma vez que ele saia vitorioso da provação; uma vez que ele resista a todas e cada uma das tentações; que rejeite todas as seduções; e comprove que nada, nem mesmo a promessa daquilo que ele considera mais valioso que a vida, daquela bênção extremamente preciosa, seu futuro adeptado – é capaz de fazer com que ele se desvie do caminho da verdade e da honestidade, ou forçá-lo a tornar-se um enganador.

(…) nós trabalhamos e nos esforçamos, e deixamos que nossos chelas sejam temporariamente enganados, para dar-lhes meios de nunca mais serem enganados a partir de agora, e de ver toda a maldade da falsidade e da mentira, não só nesta vida mas em muitas vidas depois desta. (…) Nós, os criticados e mal-entendidos Irmãos, tentamos levar os homens a sacrificar sua personalidade – um relâmpago passageiro – pelo bem-estar de toda a humanidade, portanto pelos seus próprios Egosimortais, que são parte dela, assim como a humanidade é parte do todo integral, ao qual se reunirá um dia.

(…)

O que você pensaria de um cavalheiro, ou dama, cuja afável polidez de maneiras e suavidade de linguagem não cobrisse falsidade alguma; alguém que, ao encontrar você, lhe diria direta e abruptamente o que pensa de você, ou de qualquer outra pessoa? E onde você pode encontrar aquela pérola de comerciante honesto, ou aquele patriota temente a Deus, ou político, ou um simples visitante casual seu, que nãoesconde seus pensamentos todo o tempo, e é obrigado, sob pena de ser visto como um bruto, um louco – a mentir deliberadamente, e com uma expressão facial enfática, assim que é forçado a dizer o que pensa de você; a menos que por milagre seus sentimentos reais não exijam ser escondidos? Tudo é mentira, tudo falsidade, ao redor de nós e em nós, meu irmão; e é por isso que você parece tão surpreso se não abalado, sempre que encontra uma pessoa que diz a você cara a cara a dura verdade, e também é por isso que parece impossível a você compreender que um homem pode não ter nenhum mau sentimento contra você, e até mesmo gostar de você e respeitá-lo por certas coisas, e no entanto dizer-lhe frente a frente o que pensa honesta e sinceramente de você. (….) Você teria uma idéia melhor dele [está se referindo ao mestre Morya], se ele escondesse sua raiva, mentisse para si mesmo e para os de fora, e assim permitisse que eles lhe atribuíssem uma virtude que ele não tem? – É um ato meritório extirpar com suas raízes todos os sentimentos de raiva, de modo a nunca sentir o menor paradoxismo de uma paixão que todos nós consideramos pecaminosa, mas é um pecado ainda mais grave, para nós, fingir que a raiva foi extirpada. (…) E no entanto, nas idéias ocidentais, tudo é reduzido às aparências, mesmo na religião. Um confessor não pergunta a seu penitente se ele sentiu raiva, mas se ele mostrou raiva a alguém.

(…) o primeiro dever de um chela é ouvir sem raiva ou má fé qualquer coisa que o guru possa dizer. Como podemos alguma vez ensinar, ou você aprender, se tivermos que manter uma atitude completamente alheia a nós e a nossos métodos – a de dois homens de sociedade? Se realmente quer ser um chela, isto é, tornar-se recipiente dos nossos mistérios, você tem de se adaptar às nossas maneiras e não nós as suas.

(…) você não pensa que ele [Morya] vale dez vezes mais o seu peso em ouro que um Residente inglês, umcavalheiro, que destrói sua reputação nas suas costas e que sorri e aperta sua mão com força sempre que o encontra?

[Um Mestre] Tem apenas de fazer com que [o chela] seja testado, tentando e examinando por todos os meios, de modo que sua real natureza seja atraída para fora. (…) Não é suficiente saber completamente o que o chela é capaz de fazer ou não na época e sob as circunstâncias do período de provação. Nós temos de saber do que ele pode ser capaz, diante de todos os diferentes tipos de oportunidades.
(Carta no 74 – escrita por K.H.)

§



Como Jean Paul Richter diz em algum lugar, a parte mais dolorosa da nossa dor física é aquela que é incorpórea ou imaterial, isto é, nossa impaciência, e a ilusão de que ela durará para sempre…
(Carta no 75 – escrita por K.H.)

VOLUME II

Nossas idéias a respeito do mal. O mal não tem existência per se [por si mesmo] e é apenas a ausência do bem; e existe apenas para aquele que é transformado em vítima sua. Ele surge de duas causas e, tanto quanto o bem, não é uma causa independente na natureza. A natureza é destituída de bondade ou maldade; ela segue apenas leis imutáveis quando dá vida e alegria ou manda sofrimento e morte, destruindo o que havia criado. A natureza tem um antídoto para cada veneno, e suas leis possuem uma recompensa para cada sofrimento. A borboleta devorada pelo pássaro se torna aquele pássaro, e o pequeno pássaro morto por um animal alcança uma forma mais elevada. Essa é a lei cega da necessidade e da eterna adequação das coisas, e portanto não pode ser considerada um Mal na Natureza. O verdadeiro mal surge da inteligência humana e sua origem está inteiramente no homem que raciocina e que se dissocia da natureza. Só a humanidade, portanto, é a verdadeira fonte do mal. O mal é o exagero do bem, produto do egoísmo e da ganância humanos. Pense profundamente e descobrirá que com a exceção da morte – que não é um mal mas uma lei necessária – e de acidentes, que sempre terão sua recompensa em uma vida futura – a origem de cada mal, seja pequeno ou grande, está na ação humana, no homem, cuja inteligência faz dele o único agente livre da natureza. Não é a natureza que cria doenças, mas o homem. A missão e o destino dele na economia da natureza é ter uma morte natural provocada pela velhice; salvo acidentes, nem um homem selvagem nem um animal selvagem (livre) morrem devido a doenças. Comida, relações sexuais, bebida, são todas necessidades naturais da vida; no entanto, o excesso delas traz doenças, miséria, sofrimento mental e físico. E estes últimos são transmitidos como os maiores males para as gerações futuras, os descendentes dos culpados. A ambição e o desejo de assegurar felicidade e conforto para aqueles que amamos através da obtenção de honras e riquezas são sentimentos naturais dignos de elogios, mas quando eles transformam o homem em um tirano cruel e ambicioso, um miserável, um egoísta, trazem miséria indescritível para os que estão ao redor dele; e para nações tanto quanto para indivíduos. Tudo isso então – comida, riqueza, ambição, e outras mil coisas que deixamos de mencionar – se torna fonte e causa do mal, seja por causa da sua abundância, seja devido à ausência. Torne-se um glutão, um devasso, um tirano, e você se transforma em um gerador de doenças, de sofrimento e miséria humanos. Deixe de lado tudo isso e você passa fome, é desprezado como um ninguém, e a maior parte do rebanho, os seus semelhantes, transforma você em um sofredor a vida toda. Portanto, não é a natureza nem uma Divindade imaginária que devem ser acusadas, mas a natureza humana transformada peloegoísmo em algo mau. Pense bem sobre estas poucas palavras; identifique a causa de cada mal em que você pode pensar e localize a sua origem e terá resolvido uma terça parte do problema do mal.
(Carta no 88 – escrita por K.H.)

§



Todo ser humano contém dentro de si vastas potencialidades, e é dever dos adeptos rodear o possível chela com circunstâncias que o capacitarão para tomar o “caminho da direita” – se ele tiver a capacidade dentro de si. Não temos o direito de retirar a chance de um postulante, assim como não podemos guiá-lo e dirigi-lo pelo caminho correto. Na melhor das hipóteses, podemos apenas mostrar a ele – depois que seu período de provação terminou exitosamente – que se ele fizer isso irá bem; se fizer aquilo, irá mal. Mas até que ele haja passado por esse período, nós deixamos que ele trave suas batalhas do melhor modo que puder; e temos que fazer o mesmo ocasionalmente com chelas mais adiantados e iniciados, como H.P.B., uma vez que lhes é permitido trabalhar no mundo, o que todos nós evitamos mais ou menos.
(Carta no 92 – escrita por K.H.)

§



(…) As objeções do ano passado estão ressurgindo, também; você tem uma carta minha em que explicopor que nós nunca guiamos nossos chelas (mesmo os mais avançados); nem os avisamos antecipadamente, mas deixamos que os efeitos produzidos pelas causas criadas por eles ensinem-lhes uma melhor experiência. Por favor, leve em conta aquela carta em especial. Antes que o ciclo termine, cada concepção errônea deve ser eliminada.
(Carta no 95 – escrita por K.H.)

§



Devo ter falhado de modo lamentável na transmissão do significado correto, e tenho de confessar minha incapacidade de descrever o – indescritível. Esta última é uma tarefa difícil, bom amigo. A menos que as percepções intuitivas de um chela treinado possam ajudar, nenhuma quantidade de descrições – por mais vívidas que sejam – será suficiente. De fato, não há palavras adequadas para expressar a diferença entre um estado mental na terra e um estado mental fora da sua esfera de ação; não há termos em língua inglesa que equivalham aos nossos; não há nada – exceto preconceitos inevitáveis (devido à educação ocidental na infância), portanto, linhas de pensamento em direção equivocada – nada na mente do aprendiz, que nos ajude nesta inoculação de idéias inteiramente novas!

(…) Como, então, posso explicar a você aquilo que não pode ser sentido, já que você parece incapaz de compreendê-lo? Imagens finitas são inadequadas para expressar o abstrato e o infinito; tampouco pode o objetivo jamais refletir o subjetivo.
(Carta no 104 – escrita por K.H.)

§



Por que devo eu, mesmo agora – (para colocar as sua idéias no rumo correto) – lembrá-lo de três casos de insanidade em sete meses entre “chelas leigos”, para não mencionar o fato de que um deles tornou-se ladrão? O sr. Sinnett pode considerar-se feliz por seu chelado leigo estar apenas em “fragmentos”, e porque eu desencorajei tão firmemente os seus desejos de um relacionamento mais estreito na condição de chela aceito. Poucos homens conhecem suas tendências inerentes – só a provação do áspero chelado as desenvolve. (Lembre-se destas palavras: elas têm um significado profundo).
(Carta no 110 – escrita por K.H.)

§



(…) Que ele saiba que o seu estoque [de descobertas] não terminou, e que a ciência ocidental ainda tem três estados adicionais de matéria por descobrir. (…) Mas para encontrar o Manas da matéria ele teria que fazer um voto de segredo mais sério do que ele parece inclinado a aceitar. Você conhece nosso lema, [“Ousar, querer, agir e manter silêncio”], e sabe que sua aplicação prática tem apagado a palavra “impossível” do dicionário do ocultista. Se ele não cansar de tentar, pode descobrir o mais nobre de todos os fatos, seu verdadeiro EU. Mas terá que atravessar muitos níveis até chegar a Ele. E para começar, que ele se liberte da maya de que qualquer homem vivo pode fazer “exigências” aos Adeptos. Pode criar atrações irresistíveis e compelir a atenção deles, mas isso será espiritual, não mental ou intelectual. Este conselho se aplica e é dirigido a vários teosofistas ingleses, e pode ser útil a eles conhecê-lo. Uma vez separado das influências comuns da Sociedade, nada nos aproxima de estranho algum, exceto o desenvolvimento da sua espiritualidade. Pode ser um Bacon ou um Aristóteles em conhecimento, e, mesmo assim, a sua corrente não será sentida sequer como o peso de uma pluma por nós, se seu poder estiver confinado a Manas. A suprema energia reside em Buddhi; latente – quando está associada apenas a Atman – e ativa e irresistível quando galvanizada pela essência de “Manas” e quando nada da escória desta última se mistura com aquela pura essência para levá-la para baixo com sua natureza finita. Manas, puro e simples, é de um nível inferior, e da terra; e assim os seus maiores homens contam apenas como não-existências na arena onde a grandeza é medida pelo padrão de desenvolvimento espiritual. Quando os antigos fundadores das suas escolas filosóficas vinham ao Oriente para ter acesso ao conhecimento dos nossos antepassados, eles não tinham reivindicações, exceto uma única, seu sincero e altruísta desejo de alcançar a verdade. Se alguém aspira agora a fundar novas escolas de ciência e filosofia, o mesmo plano terá êxito – se os buscadores tiverem em si mesmos os elementos do êxito.
(Carta no 111 – escrita por K.H.)

§



(…) Como diz, significativamente, o nosso chela de Pondichery, nem a você nem a qualquer outro homem do outro lado do limiar será jamais ensinada “toda teoria” da Evolução; nem ele a obterá, a menos que a adivinhe por si mesmo. Se alguém puder desemaranhá-la a partir dos fios confusos que lhe são dados, muito bem; e esta seria uma ótima prova, de fato, da sua visão espiritual. Alguns chegaram muito perto disso. Mas sempre há, mesmo com os melhores deles, erros suficientes – distorção e má compreensão, a sombra de Manas projetando-se pelo campo de Buddhi – para comprovar a eterna lei segundo a qual só o Espírito livre de todos os grilhões verá as coisas do Espírito sem um véu. Nenhum amador destreinado poderia jamais comparar-se ao proficiente neste ramo de pesquisa; no entanto, os verdadeiros Reveladores do mundo têm sido poucos e os seus pseudo-Salvadores, inúmeros; e é uma felicidade quando os vislumbres parciais que eles obtêm da luz não são, como no caso do Islam, impostos com a ponta da espada; ou, como no caso da Teologia Cristã, entre as chamas das fogueiras e em salas de tortura.

(…). Tente. “Jamais se perdeu algo por tentar”. Você compartilha com todos os iniciantes a tendência de extrair conclusões demasiado absolutamente fortes de sugestões parcialmente captadas, e de dogmatizar a respeito delas como se tivesse sido dita a última palavra a respeito. Você corrigirá isto no seu devido tempo. Você pode compreender-nos mal, e muito provavelmente o fará, porque a nossa linguagem deve ser sempre mais ou menos a linguagem da parábola e da sugestão, quando caminhamos sobre terreno proibido; nós temos nossos próprios modos peculiares de expressão e o que está por trás da cerca das palavras é ainda mais importante do que aquilo que você lê. Mas ainda assim – TENTE.
(Carta no 112 – escrita por K.H.)

§



(…) Mas esteja alerta, meu amigo, porque esta não é a última das suas provações. Não sou eu quem as cria, mas você mesmo – por sua luta pela luz e pela verdade contra as escuras influências do mundo. Seja mais cuidadoso com o que você fala sobre temas proibidos.
(Carta no 115 – escrita por K.H.)

§



(…) É suficiente que você saiba que a luta dela contra a vivissecção e a sua dieta estritamente vegetariana atraíram inteiramente para o lado dela o nosso severo Mestre. Ele dá ainda menos importância que nós a qualquer sentimento ou expressão externa – ou mesmo interna – de desrespeito para com os “Mahatmas”. Que ela cumpra seu dever na Sociedade, que seja fiel aos seus princípios, e tudo o mais virá em seu devido tempo. Ela é muito jovem, e a sua vaidade pessoal e outras falhas femininas devem ser atribuídas ao sr. Maitland e ao coro grego dos seus admiradores.

(…) Moléculas que ocupam um lugar no infinito são uma proposição inconcebível. A confusão surge da tendência ocidental de colocar estrutura objetiva no que é puramente subjetivo. O livro de Kiu-te* nos ensina que o espaço é a própria infinitude. Ele é sem forma, imutável e absoluto. Como a mente humana, que é um gerador inesgotável de idéias, a Mente Universal ou espaço tem sua ideação, que é projetada na objetividade no tempo certo, mas o espaço, em si, não é afetado por ela. Mesmo o Hamilton de vocês** demonstrou que o infinito nunca poderia ser concebido através de qualquer série de adições. Sempre que você fala de um lugar no infinito, você destrona o infinito e degrada o seu caráter absoluto, incondicionado.

*Os livros de Kiu-te são considerados a fonte das Estâncias de Dzyan, traduzidas e comentadas na obra A Doutrina Secreta, de H.P.B. (N. ed. bras.).
**Provavelmente sir Willian Hamilton (1788-1856), filósofo escocês, autor do texto Philosophy of the Unconditioned (1829). (N. ed. bras.).
(Carta no 119 – escrita por K.H.)

§



(…) É um fato universalmente aceito que o sucesso maravilhoso da Sociedade Teosófica na Índia se deve inteiramente ao princípio recíproco de tolerância sábia e respeitosa das opiniões e crenças de uns e de outros. Nem mesmo o presidente-fundador tem direito, nem direta nem indiretamente, de interferir na liberdade de pensamento do membro mais humilde, e muito menos de tentar influenciar a sua opinião pessoal. É somente na ausência desta generosa consideração, que até a mais pálida sombra de diferença arma os buscadores da mesma verdade – em outros aspectos dedicados e sinceros – com o chicote do ódio contra os seus irmãos igualmente sinceros e dedicados. Vítimas iludidas da verdade distorcida, eles esquecem, ou nunca souberam, que a discórdia é a harmonia do universo. Assim, na Sociedade Teos., cada parte, como nas fugas gloriosas do imortal Mozart, persegue incessantemente a outra em harmoniosa discordância pelos caminhos do progresso Eterno, para encontrarem-se e finalmente fundirem-se no limiar da meta buscada, formando um todo harmonioso, a nota chave na natureza.
(Carta no 120 – escrita por K.H.)

§



(…) Meu desejo é que você vá reunindo todas as reservas de forças do seu ser, de modo que possa erguer-se à dignidade e importância da crise. Por pouco que você pareça alcançar – psiquicamente – nesta vida, lembre-se de que o seu crescimento interior prossegue a cada instante, e que, próximo ao final da sua vida, como em seu próximo nascimento, o seu mérito acumulado trará a você tudo a que aspira.
(Carta no 121 – escrita por K.H.)

§



É apenas porque o princípio deve funcionar em ambos os sentidos que (…) nós sentimos, e queremos que isso seja sabido, que não temos o direito de influir no livre-arbítrio dos membros, nesta questão ou em qualquer outra. Tal interferência estaria em flagrante contradição com a lei básica de esoterismo, segundo a qual o crescimento psíquico pessoal acompanha pari passu [passo a passo, em latim] o desenvolvimento do esforço individual, e é a prova do mérito pessoal adquirido.
(Carta no 122 – escrita por K.H.)

§



Parece pouco a você que o ano anterior tenha sido empregado apenas em seus “deveres familiares”? Não; que melhor causa para recompensa, que melhor disciplina que o cumprimento do dever a cada hora e a cada dia? Creia-me, meu “aluno”, o homem ou a mulher que é colocado pelo Carma no meio de deveres, sacrifícios e amabilidades pequenos e definidos irá, através do fiel cumprimento deles, erguer-se à dimensão maior do Dever, do Sacrifício e da caridade para com toda a humanidade. Que melhor caminho, para a iluminação buscada por você, que a vitória diária sobre o Eu, a perseverança apesar da ausência de progresso psíquico visível, o suportar da má-sorte com aquela serena resistência que a transforma em vantagem espiritual – já que o bem e o mal não podem ser medidos por acontecimentos do plano inferior ou físico? Não fique desencorajado porque sua prática cai abaixo das suas expectativas; no entanto, não se satisfaça apenas admitindo isso, já que você claramente reconhece que sua tendência é com demasiada freqüência em direção à indolência mental e moral, inclinando-se mais a avançar á deriva com as correntes da vida que a definir seu próprio rumo direto. Seu progresso espiritual é muito maior do que você sabe ou pode compreender, e você faz bem em acreditar que este desenvolvimento é em si mesmomais importante que a compreensão dele pela sua consciência do plano físico. Não entrarei agora em outros assuntos, já que estas são algumas linhas de aprovação e reconhecimento dos seus esforços, e de forte estímulo para que você mantenha um estado de espírito calmo e corajoso diante dos acontecimentos externos no presente, e para que tenha esperança no futuro em todos os planos.
(Carta no 123 – escrita por K.H.)

§



Meu pobre e cego amigo – você que é inteiramente inadequado para o ocultismo prático! As suas leis são imutáveis; e ninguém pode voltar atrás depois de dar uma ordem. Ela não pode encaminhar cartas para mim, e a carta deveria ter sido dada a Mohini. No entanto, eu a li; e estou decidido a fazer mais um esforço – (o último que me é permitido) – para abrir sua intuição interna. Se minha voz, a voz de alguém que foi sempre amigo seu, no princípio humano do seu dever – não puder chegar a você, como tem ocorrido freqüentemente, então nossa separação no presente e em todos os tempos futuros – se tornará inevitável. Sofro por você, cujo coração leio tão bem – apesar de todas as objeções e dúvidas da sua natureza puramente intelectual e da sua fria razão ocidental. Mas meu primeiro dever é para com meuMestre. E o dever, deixe-me dizer-lhe, é para nós mais forte do que qualquer amizade ou mesmo amor; já que sem este princípio permanente, o cimento indestrutível que tem unido durante tantos milênios os guardiões esparsos dos grandes segredos da natureza – nossa Fraternidade, e mais, a nossa própria doutrina – teriam se desmanchado há muito em átomos irreconhecíveis. Infelizmente, por maior que seja o seu intelecto puramente humano, as suas intuições espirituais são obscuras e vagas, e nunca foram desenvolvidas. Assim, sempre que você se vê diante de uma aparente contradição, por uma dificuldade, uma espécie de incoerência de natureza oculta, causada por nossas leis e doutrinas tão confirmadas pelo tempo – (fato do qual você nada sabe, já que o seu tempo ainda não chegou) – imediatamente as suas dúvidas emergem, suas suspeitas brotam, e descobre-se que elas zombam da sua melhor natureza, que é finalmente esmagada por todas estas aparências enganosas das coisas externas! Você não tem a fé necessária para permitir que a sua Vontade se erga, desafiando e desprezando seu intelecto puramente mundano, e dando a você uma compreensão melhor das coisas ocultas e das leis desconhecidas. Vejo que você é incapaz de forçar as suas melhores aspirações – alimentadas pela corrente de uma real devoção pela Maya que você próprio fez de mim – (um sentimento que sempre me tocou profundamente) – a erguer a cabeça contra a razão fria e espiritualmente cega; a permitir ao seu coração que proclame e diga alto que até agora ele só tem tido autorização para murmurar: “Paciência, paciência. Um grande plano nunca foi aprendido de imediato”. Já foi dito a você, no entanto, que o caminho para as Ciências Ocultas tem de ser trilhado laboriosamente e percorrido com perigo de vida; que cada novo passo nele, que leva à meta final, é rodeado por armadilhas e espinhos cruéis; que o peregrino que se aventura por ele é obrigado primeiro a confrontar e vencer as mil e uma fúrias* que guardam seus portões e sua entrada adamantinos**- fúrias chamadas Dúvida, Ceticismo, Desprezo, Ridículo, Inveja e finalmente Tentação – especialmente a última; e que aquele que quiser ver mais além tem primeiro de destruir este muro vivo; deve ter um coração e uma alma vestidos de aço e uma determinação de ferro, que nunca falha, e no entanto deve ser amável e gentil, humilde, e deve ter expulsado do seu coração toda paixão humana, que leva ao mal. Você é tudo isto? Alguma vez começou um treinamento que levaria a isto? Não; você sabe disto tanto quanto eu. Você não nasceu para isto, e tampouco está em condições – um homem de família, com esposa e filho para sustentar, com trabalho por fazer – adequadas de modo algum para levar a vida de um asceta, e nem mesmo de um – Mohini***. Então por que você deveria reclamar que não lhe são dados poderes, e que até mesmo provas dos nossos próprios poderes começam a faltar a você, etc.?

*Fúrias – na mitologia clássica, divindades femininas que puniam crimes, instigadas pelas vítimas, e vingavam os deuses. (N. ed. bras.).
**Adamantinos – isto é, feito de diamante. (N. ed. bras.).
***Mohini M. Chatterjee – na época chela de K.H.
(Carta no 126 – escrita por K.H.)

§



Meu bom amigo – Shakespeare disse corretamente que “nossas dúvidas são traidoras”. Por que você tem de duvidar, ou criar em sua mente monstros cada vez maiores? Um pouco mais de conhecimento das leis ocultas teria deixado sua mente em paz há muito tempo, teria evitado mais de uma lágrima de sua gentil esposa, e dores para você mesmo. Saiba, pois, que inclusive os chelas do mesmo guru são frequentemente separados e mantidos à parte durante longos meses, enquanto ocorre o processo de desenvolvimento – simplesmente devido aos dois magnetismos contrários que, atraindo um ao outro, evitam o desenvolvimento mútuo e INDIVIDUALIZADO em determinada direção. Não há intenção de ofender, nem isto seria possível. A ignorância disso causou ultimamente imenso sofrimento em todos os lados. Quando é que você confiará implicitamente, em meu coração, se não em minha sabedoria, para a qual eu não reivindico reconhecimento da sua parte? É extremamente penoso ver você perambulando por um escuro labirinto criado por suas próprias dúvidas, do qual cada saída você fecha, além disso, com suas próprias mãos.
(Carta no 129 – escrita por K.H.)

§



(…) Alguns de vocês, teosofistas, são atingidos apenas em sua “honra” ou em seus bolsos, mas os que erguiam as fontes de luz nas gerações anteriores pagavam com suas vidas pelo seu conhecimento.

Coragem, pois, todos vocês, que querem ser guerreiros da Verdade una e divina; prossigam com valentia e confiança; alimentem sua força moral, não a desperdicem com futilidades, mas usem-na em grandes ocasiões como a atual.

(…) Estou bem consciente da mudança que ultimamente houve em você, mas isto não muda a questão principal. Se quiser continuar com seus estudos ocultos e trabalho literário – aprenda a ser leal à Idéia, mais do que ao meu pobre eu. Quando algo deve ser feito, nunca se pergunte se eu o desejo, antes de agir; eu desejo tudo o que pode, em grau maior ou menor, levar para adiante esta inquietação.
(Carta no 130 – escrita por K.H.)

§



Não podemos alterar o Carma, meu “bom amigo”, de outro modo nós dissiparíamos a nuvem atual que há sobre seu caminho. Mas fazemos tudo o que é possível nestas questões materiais. Nenhuma escuridão pode durar para sempre. Tenha esperança e fé e poderemos eliminá-la. Não há mais muitos fiéis ao “programa original”! E você recebeu muitos ensinamentos e possui muita coisa que é, e será, útil.
(Carta no 137 – escrita por M.)

§



Esta é a última carta recebida por Sinnett diretamente do Mahatma.

Coragem, paciência e esperança, meu irmão.
(Carta no 138 – escrita por K.H.)

§



Não é suficiente louvar a organização e suas lojas como escolas de moralidade, sabedoria e benevolência, porque elas sempre serão julgadas pelo mundo externo pelos seus frutos, e não pelas suas pretensões – não pelo que elas dizem, mas pelo que fazem. A loja sempre esteve necessitada de trabalhadores eficientes; e, como em todas as organizações, o trabalho dependia de alguns poucos. Destes poucos, apenas um tinha um objetivo definido em mente, e buscava-o firme e constantemente – VOCÊ. No entanto, a sua natural reserva e o forte componente de Sociedade mundana dentro do organismo Oculto, o sentido inglês de individualidade e do que é adequado, por parte de cada membro, impediram você, de um lado, de afirmar seus próprios direitos como deveria ter feito, e fizeram com que os outros se separassem muito de você, cada um decidindo agir como ele ou ela pensava ser melhor para assegurar sua própria salvação e satisfazer suas aspirações, “trabalhando carmicamente em um plano mais elevado” segundo a tola frase que agora circula entre eles.

(…) É o grande teste supremo para todos. Aquele que permanecer passivo nada perderá, mas nada ganhará, quando tudo terminar. Ele poderá até fazer com que seu Carma o leve um pouco para trás no caminho pelo qual ele já vinha subindo. O que você necessita extremamente é a abençoada autoconfiança de Olcott e – perdoe-me – a cara preparada, vulgar mas poderosa que ele tem. Não é necessário renunciar ao tato e à cultura para tê-la. É um Proteu de muitas faces, que pode voltar qualquer uma das suas muitas faces ou caras para o inimigo e forçá-lo a retirar-se.

(…) NADA PODE DESTRUIR A L.L.* exceto esta única coisa – passividade. Saiba disso, você que confessa “não ter ânimo no momento para dar palestras e conferências”. “TRABALHE SECRETAMENTE”, é o melhor que você pode fazer – mas não em silêncio, se não quiser matar com suas próprias mãos a Sociedade e as suas próprias aspirações pessoais. Nem todos são oradores na L.L., e isso é muito bom, ou ela seria uma Babel. Nem todos são sábios, mas os que são deveriam compartilhar com os demais. Combinem-se para tornar as coisas completas. Faça com que a sua atividade seja proporcional às suas oportunidades e não volte seu rosto para longe destas últimas, nem das oportunidades que são criadas para você. “Separe as brasas que queimam, e elas rapidamente se apagarão; reúna-as e elas brilharão, irromperão em chamas, e se erguerão em direção ao céu com um brilho vermelho”. Assim, a L.L. brilhará se o desânimo for mantido à distância, se não for permitido que suas luzes queimem e se apaguem como pontos de luz isolados e intermediários, mas se forem reunidas e focalizadas até ficarem plenamente vermelhas nas mãos do seu presidente, e se não for permitido que estas mãos abandonem a bandeira confiada a elas. A sujeira humana nunca adere à chama contra a qual é lançada, nem pode contaminá-la. Ela só adere firmemente ao mármore, ao coração frio que perdeu a última faísca da chama divina. Sim, de fato, os mestres e os “Poderes existentes” gostariam de chamar muitos e muitos que estão tristes, solitários e cansados e guiá-los até este belo território da teosofiaoculta, psíquica, para que se reunissem com eles em torno de seus altares. Dois já estão fisicamente lá, dois que venceram suas batalhas e encontram os supostamente “invisíveis” – cada um deles por seu próprio caminho. Porque os ensinamentos da “Ordem” são como pedras preciosas – seja qual for o ponto de vista de que são observados, a luz, a verdade e a beleza brilham, e guiam o peregrino cansado que as busca; basta que ele não interrompa sua caminhada para seguir os fogos fátuos do mundo ilusório, mas permaneça surdo para o rumor público.

Agora, tente – por piedade, despertar de uma vez por todas sua intuição, se puder. Sofro por você e faria qualquer coisa para ajudá-lo. Mas você me impede.

*Loja de Londres da Sociedade Teosófica.
(Carta no 140 – escrita por H.P. Blavatsky)

§



Você diz que existem poucas áreas da ciência das quais não possui conhecimento maior ou menor, e que acredita estar fazendo certa quantidade de bem, tendo adquirido as condições de fazê-lo através de longos anos de estudo. Não há dúvidas sobre isso. Mas você me permite esboçar-lhe com mais clareza a diferença entre os métodos das ciências físicas – muitas vezes chamadas exatas como elogio – e as metafísicas? Estas últimas, como sabe, sendo incapazes de comprovação diante de platéias misturadas, são classificadas pelo sr. Tyndall como ficções poéticas. A ciência realista dos fatos, por outro lado, é inteiramente prosaica. Pois bem, para nós, pobres filantropos desconhecidos, nenhum fato de quaisquer dessas ciências é interessante a não ser na medida da possibilidade de produzir resultados morais, e na proporção de sua utilidade para a humanidade. E, em seu isolamento orgulhoso, nada pode ser mais completamente indiferente a todos e a todas as coisas, ou mais inclinado a coisa alguma fora dos requisitos egoístas do seu avanço, do que essa ciência materialista dos fatos.

(…) E nós – não eles [homens da ciência] – vemos uma diferença nítida entre a energia no movimento do vento e no de uma roda que gira. Por quê? Porque cada pensamento do homem, ao ser produzido, passa ao mundo interno e se torna uma entidade ativa associando-se – amalgamando-se, poderíamos dizer – com um elemental, isto é, com uma das forças semi-inteligentes dos reinos. Ele sobrevive como inteligência ativa – uma criatura gerada pela mente – por um período mais curto ou mais longo, proporcionalmente à intensidade da ação cerebral que o gerou. Desse modo um bom pensamento é perpetuado como força ativa e benéfica, um mau pensamento como demônio maléfico. Assim, o homem está constantemente ocupando sua corrente no espaço com seu próprio mundo, um mundo povoado com a prole de suas fantasias, desejos, impulsos e paixões; uma corrente que reage sobre qualquer organização sensível ou nervosa que entre em contato com ela na proporção da sua intensidade dinâmica. A isto os budistas chamam “Skandha”. Os hindus lhe dão o nome de “Carma”. O adepto produz essas formas conscientemente; os outros homens as atiram fora inconscientemente.

Para ser bem-sucedido e conservar seu poder, o adepto deve morar em solidão e mais ou menos dentro de sua própria alma. A ciência exata percebe ainda menos que enquanto a formiga trabalhadora, a abelha ocupada e o pássaro que faz seu ninho acumulam, cada um deles, a seu modo humilde, tanta energia cósmica potencial quanto um Haydn, um Platão ou um lavrador que trabalha sua terra, dos seus modos; o caçador que mata por prazer ou por lucro, o positivista que usa seu intelecto para provar que + x + = -3, estão desperdiçando e espalhando energia não menos do que o tigre que salta sobre sua presa. Todos eles roubam a Natureza em vez que enriquecê-la, e todos eles, na medida da sua inteligência, verificarão que terão que pagar por isso.

(…) Você poderia fazer o Gunga ou o Brahmaputra* voltarem às suas nascentes? Você poderia, ao menos, conter suas águas sem que as margens ficassem inundadas? Não; mas você pode atrair parte da corrente para canais e usar o seu poder hidráulico para o bem da humanidade. Assim também nós, que não podemos impedir o mundo de ir na direção que lhe é destinada, podemos no entanto deslocar parte da sua energia para canais úteis.

(…) Sua principal meta é extirpar as atuais superstições e o ceticismo, e retirar, de fontes antigas e há muito tempo fechadas, as provas de que o homem pode criar seu próprio destino futuro, e saber com segurança que ele pode viver mais além, bastando que ele queira, e que todos os “fenômenos” são apenas manifestações da lei natural, e que tentar compreender esta lei é dever de todo ser inteligente. Você devotou pessoalmente muitos anos a um trabalho concebido de modo benévolo e realizado com seriedade. Dê a seus semelhantes metade da atenção que você dedicou a seus “passarinhos”, e completará uma vida útil com um trabalho grandioso e nobre.

*Gunga (Ganges) e Brahmaputra – grandes rios indianos. (N. ed. bras.).
(Anexo I. Primeira carta de K.H. para A.O. Hume. Datada de 1° de novembro de 1880)

http://www.cosmosofia.com/textos9.html

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