Lampejos de Abiegnus

 

Fernando Liguori

Thelema é a quintessência de uma Gnose Estelar, uma Corrente Espiritual que existe bem antes do início dos tempos. As influências dessa Gnose Estelar foram rastreadas por toda parte ao longo da história. Os primeiros traços de sua presença são encontrados nos mitos e lendas da Lemúria e Atlântida. As comunidades pré-dinásticas e posteriormente as Dinastias Negras do antigo Egito contemplaram a ressurgência da Tradição Estelar que foi transportada para Tradição Ocidental de Mistérios através das Correntes do Hermetismo, da Qabalah e do Gnosticismo. No Oriente, a filosofia não-dualista prajñāpāramitā,[1] o Tao, o Śaivismo da Caxemira[2] e o Advaita-Vedānta[3] apresentam traços da Gnose Estelar. Particularmente, a claridade prístina do Budismo Mahāyāna que floresceu no Taoísmo chinês e posteriormente no Budismo Chan e Zen e a evolução tibetana do Dzogchen[4] são continuadoras da Gnose Estelar e compartilham uma profunda herança com Thelema. É através do entendimento dessas tradições arcaicas que Thelema abre a sua beleza oculta e um nível mais profundo de interpretação esotérica.

A Filosofia de Thelema é expressada n’O Livro da Lei em uma frase de onze palavras: Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei. Apesar das interpretações superficiais, essa frase não é uma injunção para que a pessoa faça o que quiser ao acaso das consequências. Ao contrário, a Lei de Thelema condensada nessa frase é uma injunção da ordem natural do cosmos – através da Verdadeira Vontade – para se realizar, no âmago mais profundo, o propósito de ser, o dharma da existência. Especificamente o svadharma de cada um, nada mais. Neste nível Thelema é celebrada como um culto individual cujo estandarte é a bandeira flamejante da liberdade.

Em um sentido mais profundo, todos nós já estamos realizando a Verdadeira Vontade. Contudo, nos encontramos confusos e dispersos acerca de nossa Verdadeira Natureza. Todos os nossos desejos, carências, ânsias, fantasias e caprichos são condicionados pela família, sociedade, cultura, complexos, saúde, a mídia, o tempo etc. Esses kleśas[5] inconscientes obscurecem a Verdadeira Vontade e é requerido um profundo auto-conhecimento para chegar a um claro entendimento de quem nós somos e qual é o nosso papel para conscientemente incorporarmos a Verdadeira Vontade e vivê-la em sua plenitude.

A Verdadeira Vontade pode ser comparada a um grande repositório cósmico de toda energia potencial do universo a nossa disposição. O que precisamos fazer é abrir esse manancial com a chave adequada. O santo indiano do Séc. XX, Śrī Ramaṇa Mahāṛṣi, um mestre moderno da Tradição Advaita-Vedānta, condensou essa doutrina em apenas uma questão: Quem sou Eu? É no silêncio que a resposta é encontrada.

Por isso disse o profeta e servo da bela deusa: Quem sou eu, e qual deverá ser o sinal? Deste modo ela lhe respondeu, curvando-se para baixo, uma deslizante paixão de azul, toda-comovente, toda introduzida, suas amáveis mãos sobre a terra negra, & seu brando corpo arqueado por causa do amor, e seus afáveis pés não magoando as pequenas flores: Tu sabes! E o sinal deverá ser meu êxtase, a consciência da continuidade da existência, a onipresença do meu corpo.[6]

O corolário de Thelema é agape, uma palavra grega que significa «amor». Amor é a lei, amor sob vontade. Este amor é o bhakti místico que abrange a totalidade do universo, o Vazio de toda criação. N’O Livro da Lei, esse princípio é expresso pela deusa egípcia das estrelas, Nuit. Ela é a Deusa do Infinito Espaço e das Infinitas Estrelas.[7] O agape é o Culto do Infinito, o Útero Criativo ou a Matriz da Realidade. Portanto, Agape é idêntico a Thelema: duas expressões que oferecem ângulos diferentes sobre o todo; um não existe sem o outro em uma ação dinâmica entre o indivíduo-finito e o Ser Infinito. A luta pela liberdade individual é de fato o fluxo universal de uma energia radiante. Portanto, o Culto da Liberdade Individual é o Culto do Infinito. Cada qual diferente em seu plano mas idênticos quando observados a partir do âmago mais profundo.

A Tradição Nātha Sampradāya, um conclave tântrico de yogīs vāmācāris, expressa a premissa da Lei de Thelema através da palavra svecchacara que significa «viver de acordo com a própria vontade». Em seus últimos ensinamento Buda instruiu seus discípulos: «seja para si mesmo sua própria luz; seja para si mesmo o seu próprio refúgio; não procure por nenhuma outra luz ou refúgio». No presente, Thelema se apresenta na mensagem transmitida pelo O Livro da Lei ou a Lei do Faz o que tu queres. Eventualmente, alguma outra forma de se apresentar a tradição irá emergir da noite dos tempos. A Gnose Estelar não é estática e não se encontra trancafiada em um modelo particular de culto através da história. Ao contrário, ela é um processo dinâmico, evolutivo e sempre crescente, uma espiral de crescimento em direção ao Infinito.

Lampejos de Abiegnus ~ Círculo Tifoniano.

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