É muito curioso notar que, aqueles que nascem e crescem como escravos, e vivem constantemente numa sociedade de escravos, preferem morrer a se tornarem livres. Se algum desses escravos felizmente obtém a ideia de se tornar livre e tenta buscar a liberdade, seus companheiros escravos irão pensar que ele está indo na direção errada, e tentarão ao máximo expulsá-lo da comunidade. Mas, se o seu desejo por liberdade for muito forte, ele nunca será levado pelas influências dos outros escravos; buscará a companhia daqueles que são livres e não estão amarrados pelas correntes do martírio. Então, talvez, ele poderá até ajudar aqueles que ainda estão em escravidão e querem ser livres.
A comunidade em que estamos vivendo agora é exatamente aquela de escravos. Nascemos como escravos, crescemos como escravos e vivemos constantemente cercados de escravos. Se olharmos à nossa volta, será quase impossível encontrar um homem ou uma mulher que seja verdadeiramente livre. Nós não somos escravos de nossos desejos, de nossas paixões e de nossos sentidos? Não somos escravos de nosso corpo e das constantes mudanças que estão ocorrendo em nosso maquinário, que chamamos de corpo humano? Não somos escravos da raiva, do ódio, do ciúme, das emoções negativas, da dor e dos prazeres sensoriais? Não estamos constantemente obedecendo às ordens das centenas de mestres que regem o nosso interior? Se alguém diz palavras doces e carinhosas, sentimo-nos adulados e queridos, e se palavras duras entram em nossos ouvidos, sentimo-nos insultados e machucados. Isso não é escravidão? Enquanto estivermos buscando intensamente os prazeres, não somos escravos desses prazeres? Não somos escravos da ambição insaciável por dinheiro, poder político e social, nome e fama? O que pode ser pior do que tal estado? Todavia, quão surpreendente é o fato de que, apesar de sermos escravos de tudo isso, do orgulho, da vaidade, da beleza que não vai além da pele, escravos da vida e da morte, nós não percebemos essa escravidão, não somos conscientes dela! Nunca somos capazes de pensar em uma condição melhor do que essa!
Nós estamos dormindo inconscientemente, depois de tomar várias taças de um licor, o licor intoxicante da ilusão. Toda a humanidade está loucamente perseguindo fantasmas de esperança, que mudam de cor à medida que nos aproximamos deles, e repentinamente desaparecem, e novamente aparecem à distância com novas cores brilhantes – cores maravilhosas que atraem de novo nossa atenção e nos fazem persegui-los continuamente com tremendo esforço. Esse processo está continuamente ocorrendo com cada vida individual.
Como pode um escravo ser feliz? Ele pode até se iludir pensando que está feliz. Mas não é felicidade, e sim ilusão. A felicidade não consiste de ilusão, mas de liberdade. Somente é feliz aquele que é livre, pois a felicidade que vem da liberdade é eterna e ilimitada. Se quisermos atingir tal felicidade, temos de quebrar as correntes da escravidão. Antes disso, porém, precisamos entender e estar conscientes do seguinte fato: que ainda somos escravos. No momento em que percebermos que estamos vivendo como escravos, que começarmos a sentir as condições de nossa vida presente, nesse mesmo momento sentiremos os efeitos da escravidão em nossas vidas diárias. Buscaremos então a companhia daqueles que já são livres, que já quebraram as amarras. Iremos então apreciar os seus ensinamentos, e iremos entender cada vez mais as suas instruções, que nos levam à liberdade.
Essa libertação da constante escravidão, ou emancipação da alma de suas constantes ilusões, é o ideal mais elevado da Vedanta. Em sânscrito é chamado de moksha, que significa liberação. A Vedanta não segue especulando e teorizando, mas começa tomando as condições de nossas vidas atuais e mostra o caminho para essa libertação. A causa do aprisionamento é a ignorância da Verdade. Como Jesus disse: “Conheça a Verdade e a Verdade te libertará”.

– Swami Abhedananda

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